O dia não era dos melhores para Rafael. Caminhando pelo centro da cidade, nervoso, ele não conseguia imaginar o que faria dali em diante. Minutos antes seu chefe havia comunicado sua demissão. Nos mais de quinze anos trabalhando como vendedor de autopeças, ele viu vários de seus colegas serem demitidos e enfrentarem muita dificuldade para conseguir um novo emprego. Ainda que tivesse percebido alguns sinais de que as coisas não iam bem, Rafael não se preparou para aquele momento e suas finanças pessoais estavam em péssima situação.
Sem coragem de ir para casa e levar as más notícias para a esposa e filhos, ele perambulava pelas ruas do centro, fazendo contas. Há menos de um ano havia sacado o fundo de garantia para quitar a dívida do cartão de crédito, num acordo com a empresa. Por isso, o saldo da rescisão mal daria para as despesas do mês. Ele precisava encontrar um novo emprego rapidamente. Sem isso, teria que devolver o carro financiado e voltar para a casa dos pais, pois não haveria dinheiro para o aluguel. Manter a viagem programada com a família, então, nem pensar.
Rafael estava desesperado e com os olhos marejados, caminhando pelo calçadão, no centro de comércio popular, quando ouviu a voz pela primeira vez:
-Entre na lotérica.
Assustado, ele procurou ao redor e não conseguiu definir de onde veio aquela voz, que chegou com muita nitidez aos seus ouvidos. Ainda sem identificar, ouviu novamente:
-Entre na lotérica.
Sem saber a origem da voz, ficou assustado e olhando para todos os lados. O comércio estava em pleno funcionamento e muitas pessoas passavam por ele, olhando com desconfiança seu comportamento. Então ouviu novamente, dessa vez de forma ainda mais clara:
-Entre na lotérica.
Quando se deu conta, Rafael estava em frente à uma casa lotérica. Distraído que estava em seus pensamentos, antes de ouvir aquela voz, não se dera conta disso. Ele só apostava na mega sena da virada e sempre fazia planos de antemão sobre o destino do prêmio. Claro, nunca havia ganho e seu ano começava com frustração. Aliás, era comum ouvi-lo dizer, meio em forma de piada, meio em sinal de frustração, que não ter ganho a mega da virada tinha atrapalhado seus planos para o ano.
Entrou na casa lotérica, que estava cheia. Era uma quarta-feira e a mega sena estava acumulada. Mais de quarenta milhões. Rafael preencheu dois cartões e entrou na fila para apostar. Começou a pensar que ganhar o prêmio resolveria seus problemas. Mais do que isso, poderia comprar a loja de autopeças e demitir o seu chefe, só por vingança. Durante os minutos na fila, ele já planejou como seria o dia em que entraria, de forma triunfal, na loja e anunciaria a demissão de Márcio, seu carrasco, em alto e bom som, para que todos pudessem apreciar sua vitória.
Inebriado com essa fantasia, chegou ao caixa e quando ia entregar os palpites, ouviu a voz mais uma vez:
-Compre o bilhete da loteria federal com final 45.
Ele olhou ao redor e não identificou quem falou aquilo. E pelo olhar das outras pessoas, percebeu que ninguém mais ouviu. Decidido a dar uma chance àquela loucura, perguntou para a atendente:
-Tem bilhete da loteria federal com o final 45?
A atendente vasculhou os bilhetes que estavam pendurados ao lado do caixa, retirou um da pilha e mostrando o final 45 a ele, perguntou:
-Vai querer inteiro ou só uma fração?
Rafael perguntou o preço e constatou que o valor do bilhete inteiro era exatamente a quantia que tinha na carteira: trinta reais. Já inebriado pelo inusitado da situação, não titubeou e comprou o bilhete inteiro.
-Quando corre, perguntou à atendente?
-Hoje, às dezenove horas, ela respondeu.
Era a primeira vez que apostava na loteria federal e ele não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava. Procurou por informações, encontrou os detalhes das apostas e premiação afixados numa das paredes da casa lotérica e descobriu que poderia ganhar até quinhentos mil reais. Não eram os quarenta milhões da mega sena, mas resolveria seus problemas, sem dúvidas.
Certo de que o prêmio já estava ganho, Rafael não voltou para casa. Almoçou num bom restaurante e aproveitou o tempo livre para cortar o cabelo, fazer a barba e passear pelo centro da cidade. Santo cartão de crédito! Chegou em casa no horário normal, um pouco depois das sete da noite, e foi direto para o computador do filho, procurar pelo resultado. Sua esposa, que assista televisão na sala, estranhou:
-Amor, o que houve? Algum problema? Deixei sua janta no forno.
Rafael disse que precisava responder um e-mail e, um tanto desajeitado com a tecnologia, demorou alguns minutos até encontrar o resultado no site da Caixa. E quase teve um infarto quando viu o número sorteado para o primeiro prêmio: 83745, exatamente o que constava no seu bilhete. Trêmulo, ele conferiu várias e várias vezes, até que se convenceu: ganhou sozinho o prêmio de quinhentos mil reais.
Desligou o computador, saiu do quarto e, mesmo trêmulo, nada disse à esposa ou aos filhos. Eles assistiam televisão na sala, e ele foi jantar na cozinha. Logo se juntou a eles e mantiveram a rotina. Rafael estava ali, de corpo presente, mas sua cabeça não parava de pensar no que faria com o prêmio.
No dia seguinte, saiu cedo de casa e se mandou para a agência central da Caixa. A burocracia para o recebimento do prêmio foi vencida rapidamente, pois era correntista, e Rafael saiu de lá com o dinheiro depositado em sua conta. De lá, foi direto para a concessionária Volkswagen, onde seu primo trabalhava como vendedor.
-Armando, quero trocar meu carro.
-Mas Rafael, seu carro é financiado e, pelo que me lembro, faltam muitas parcelas ainda. Você vai perder dinheiro.
-Dinheiro não é problema! Quanto custa aquela Amarok ali?
Armando riu, imaginando que era uma piada, mas o semblante sério de Rafael o desarmou:
-Aquela é a topo de linha, Rafael. Custa mais de duzentos e cinquenta mil.
-Vou levar. Quanto você paga no meu carro?
-Rafael, mas para financiar sua renda não vai bastar. As parcelas vão ficar muito altas.
-Vou pagar à vista, Armando. Acertei na loteria. Avalie o meu carro.
Armando então atendeu o pedido do primo e duas horas mais tarde, depois de assinar a papelada e fazer o pagamento da diferença, Rafael saiu da concessionária dirigindo seu novo carro. Era a realização de um de seus sonhos: uma camionete topo de linha, como aquelas que ele via várias de seus clientes estacionarem em frente à loja.
Disposto a experimentar o novo brinquedo, ele se dirigiu para uma das saídas da cidade. Numa avenida, ainda dentro da cidade, se preparava para parar no sinal vermelho, quando ouviu a voz novamente:
-Vai que dá.
Rafael falou em voz alta, dentro do carro:
-Mas o sinal está fechado.
Só para ouvir a voz de novo, ainda mais clara:
-Vai que dá.
Confiando na voz, ele avançou o sinal e nada aconteceu. Continuou dirigindo e logo estava fora dos limites da cidade, quando ouviu a voz mais uma vez:
-Acelera!
Rafael não pensou duas vezes e acelerou o carro. O velocímetro já mostrava mais de cento e vinte por hora. Feliz, sentindo toda a potência do motor novo e aproveitando a estrada vazia, ele acelerou mais. Cento e cinquenta.
Depois de uma curva para a direita, uma longa reta em subida. Ainda em alta velocidade, ele observou que lá na frente um caminhão seguia lentamente, vencendo com dificuldade aquela colina. Rapidamente fez os cálculos e percebeu que não daria para ultrapassar antes do topo, então começou a reduzir, quando ouviu a voz mais uma vez:
-Vai que dá!
Rafael ainda tentou rebater:
-Mas é faixa contínua.
A voz insistiu, mais alto:
-Vai que dá!
Rafael pisou mais fundo no acelerador, chegou atrás do caminhão e começou a ultrapassagem. Quando estava bem no topo da colina, na metade da ultrapassagem, viu uma carreta vindo em sua direção. Só deu tempo de ouvir a voz pela última vez:
-Ih, não vai dar não.

Hilário
Pois é. Rafael teve uma nova chance e a desperdiçou. Não pode reclamar.
Vozes do além , não combinam com seu humor…
Talvez o assunto, não identifiquei ao certo, mas a perdi a atenção ao longo da narrativa. O texto, mesmo não sendo, pareceu mais longo que os demais , cheguei a pular trechos para ver se a narrativa empolgaria.
Não acho que o Dr. deva publicar este comentário…
Só o fiz, pq me pareceu que vc fugiu do seu estilo e esse texto, lógico que opinião, ficou “Boring”.
Vai que dá… mas não deu…
😉
A ideia é fazer várias tentativas por aqui. E, sem paixão, deixar aquelas que não funcionarem pelo caminho. Seu feedback foi muito importante, obrigado.